A mulher no jornal A Alvorada

A Mulher no jornal A Alvorada
18/03/2024 Jorge

Este é um assunto que sempre me interessou, e dediquei muito tempo lendo e buscando textos sobre o que os homens pensavam sobre as mulheres e a resposta que elas poderiam dar a tais ideias.

O A Alvorada durou muitas décadas, e é evidente que durante os primeiros anos o machismo era tão exagerado que dá raiva e vergonha ler alguns textos.

A coisa foi melhorando muito pouco a pouco, até a década de 1930, onde finalmente a mulher não só tem voz, como questiona algumas das ideias divulgadas anteriormente no semanário. Os dois discursos convivem nas páginas d’A Alvorada e coincidem na importância da educação de todos por igual.

Aparecem não somente os textos assinados por mulheres, como a criação de uma sociedade composta de mulheres com a intenção de estudar e instruir outras mulheres para a sua emancipação, nessa época o jornal publica uma «Secção Feminina», que divulga as ideias e conceitos discutidos nas reuniões e estimula a educação feminina publicando notas de distintas senhorinhas da sociedade pelotense.

Nas páginas da Alvorada os textos sobre as mulheres ofereciam duas opções: ser esposas ou mães. Os dois caminhos estariam cheios de sacrifícios e sofrimentos, mas esse era o destino da mulher, segundo o senhor que escreveu.

 


Textos escritos por homens

Mãe e Esposa

A grande, elevada e importante função da mulher nas sociedades humanas diz Ramalho Ortigão, não é ser boticaria, jornalista ou ser doutora, é ser mãe, e ser esposa.

Ser mãe e esposa, é uma sentência cuja posse, como a de todas as ciências, depende de um longo e apurado estudo.

Se é difícil saber ser mãe, é mais difícil se esposa.

Organizar e dirigir o interior de uma casa, digna, risonha, aprázivel é tarefa que demanda uma inteligencia altamente esclarecida, o gesto mais sabiamente cultivado, os hábitos de ordem mais metódicamente estudados e mais trabalhosamente contraídos.

Para que, por exemplo, um homem de gênio como Bismarck diga de sua mulher : devo-lhe tudo o que sou, é preciso que ela tenha desenvolvido na organização e no arranjo da sua casa conjugal um poder de virtude não certamente inferior a poder de espírito por seu marido para revirar a face da política da Europa.

É preciso que ela tenha sido, na longa extensão da palavra, uma completa mulher de casa : que tenha a serenidade e a paciência posta até a última prova ; que tenha a suprema bondade e que reuna a cultura do espírito precisa para ser a confidente de um homem de genio ; que saiba todos os segredos da higiene e da química culinária ; que tenha a compreensão e gosto das artes decorativas ; que seja : enfim, superiormente instruída, que não seja medica, filosofa, nem literata, e que empregue todo o seu espírito e todo o seu coração em ser unicamente uma esposa e uma mãe.

 


Mathias

 

Com bastante moral dupla, Mathias publica duas esclarecedoras mostras da sua maneira de pensar e tratar as mulheres nessas duas publicações assinadas por ele.

Em um poema «romântico» titulado MEU VIVER, o auto intitulado «dedicado noivo» dedica à sua noiva Thereza, um poema cheio de palavras bonitas onde acaba confessando que tão somente tem: «O desejo, que tenho, de possuir-te…», e no mesmo jornal publica outro texto afirmando que a mulher era o diabo com saia e que não tinha alma, comprovado por um sábio sem nome.

O trato condescendente e a afirmação constante de que a mulher deve ser esposa e mãe, aceitando o seu papel como sacrificada nessa relação, em que maridos e filhos podem trair, mentir, enganar, usar de violência. A culpa sempre será da mulher, que deve aceitar e perdoar. Uma visão bastante interessada dos homens, para controlar as mulheres e assim conquistar a liberdade para fazer o que queiram, por ser o sexo forte.

 


 

A Mulher

Disse bem um antigo poeta que a mulher é um… animalsinho delicioso…

Eu acharia mais certo se, em vez de delicioso, o mencionado poetista tivesse dito… pernicioso… , principalmente para as nossas algibeiras.

A mulher é a mais perfeita criatura que sahiu das mãos do… Diabo.

Quando Jehová fez o peixe, Satanaz fez a cobra ; aquelle fez o cão, este fez o gato ; aquelle fez o passarinho, este fez o morcego, e assim, em completo antagonismo, foram as creações do Rei das Trèvas ás creações do Rei da Luz.

Após a feitura de todos os animaes, Deus lembrou-se de fazer o homem e fel-o ; o Diabo imitou-o e fez… a mulher.

Comprovo a minha asserção ; tanto a mulher é criatura do Diabo, que não tem alma.

A prova deu-nos, ha bem pouco, um ilustre sábio, que fez a curiosa experiencia de pezar o corpo de um homem agonizante e ; imediatamente,a pós a morte ; o cadaver acusou uma diminuição de 600 gramos : era o peso da alma do homem, que havia abandonado a materia.

Essa experiencia, feita depois numa representante do sexo frágil, deu resultado negativo e… atñe contraproducente: O cadaver aumentou um kilo e meio ! ! !

O sabio explicou: » É que a mulher não tem alma, e , em vista dessa lacuna, quando ela espicha a canela, a alma do Rei do Averno encarna-se na mulher! «

–Saja!

Sabia eu que a mulher não tinha coração, mas… alma?!…

Bem diz a modinha que o Mario canta e que começa assim: » A mulher é o diabo de saia…!

Mathias.


Para ser uma boa esposa


Os dez mandamentos da boa esposa, escriptos pela rainha da Romania «Carmen Silvia» na litteratura, e que tambem é uma esposa affectuosissima, merecem ser conhecidos de nossas leitoras :

1o – Não sejas a primeira a brigar. Mas se fores a isso arrastada, sêr valorosa até o fim.

2o – Não te esqueças que casastes com um homem e não com um Deus. Não te admires pois das suas fraquezas.

3o – Não peças frequentemente dinheiro ao teu esposo, gasta somente a mensalidade que dá para as despezas da casa.

4o – Não reparares que teu marido tem pouco coração, pensa que tem um estomago. Acariciando o seu estomago, o coração se expandirá.

5o – De vez em quando, mas, não com frequencia, deixa a ultima palavra ao teu marido.

Elle ficará contente e tu nada soffrerás.

6o – Lêr todo o jornal, não sómente os factos escandalosos.

Teu marido ficará satisfeito de poder falar contigo dos acontecimentos do dia e até da politica.

7o – Não offendas teu esposo, mesmo quando brigues com elle foi o teu semi-deus.

8o – Dá as vezes a entender a teu marido que elle é o mais perspicaz, mais culto e confessa que tu não és sempre infallivel.

9o – Se teu marido fôr inteligente, serás para elle uma camarada. Se fôr um estupido, uma amiga.

10o – Respeites, antes de tudo, a amãe de teu marido; pensa que elle a amaou antes que te amasse.

N. B. – A todos os nossos leitores aconselhamos que, antes de darem uma ultima laçada na deliciosa vida de solteiro, façam com que suas noivas decorem estes mandamentos.

 


Como deve ser a mulher

A mulher deve ser bella, deve ter graças e encantos; nem todas podem ser lindas, que a formosura não ficou em dote de todas as filhas de Eva, mas podem ser bellas, Belleza não é formosura nem lindeza ; belleza é o resultado das graças : pode lhas dar educação, pode reprimir até defeitos do corpo, pode substituir a fealdade.

Mães cegas que vos enlevaes na formosura de vossas filhas e cuidaes que não precisam mais encantos, – mães que choraes sobrea feladade de vossas  filhas e julgaes que nenhum attractivos podem ter, voltae desse erro fatal a ambas e tão funesto a umas como a outras.

Se a natureza foi liberal com tua filha,  não desprezes essa vantagem ; cuida da sua formosura, preserva essa tez delicada, conserva essas mãos finas, cultiva essas rosas de saúde, nutre esse cabelo ondeado, molda esse talhe airoso, conserva esse porte legante. Tua filha será formosa : tanto melhor para ela ; com virtude, instrução e formosura ; ha de ser feliz em todo o estado. Foi á tua escassa ou madrasta a natureza ? – não creias infeliz por isso ; em tua mão não está fazel-a formosa, – bella sina.

A educação embrandece pelles duras, amacia mãos asperas, dá graça, e doçura a olhos de pouca luz, faz interessante a face palida e afáveis os lábios descorados, põe a bondade do coração na fronte que não é alva, torna elegante o corpo que não é airoso, amável o que não é lindo, engraçado o que não é formoso.

Tua filha ha de ser bella; consola te, mãe augustiada ; cuida da sua educação ; vel-a-has adotada ; feliz e preferida a muita formosura.

ALMEIDA GARRET.


Eram abundantes os textos com recomendações, e diferentes autores masculinos escreveram por muitos anos, defendendo suas ideias de como devem ser as mulheres.

Almeida Garret era um colaborador constante sempre preparado para levantar a sua pena e determinar o destino da mulher.

Numa capa de 1933 bastante romântica com títulos como AMOR, O BEIJO, temos um que define A MULHER. O discurso continua afirmando que a mulher só é digna de respeito se dedica a sua vida a ser mãe e cuidar da casa. O homem representa a força e a mulher a beleza.

 


A Mulher

Nas nossas sociedades modernas, emancipadas de antigos preconceitos, a mulher acha-se no mesmo plano que o homem, posto que os seus attributos sejam oppostos.

O homem representa a força, a muher a belleza.

A discordia ha de existir sempre, desde o momento em que a mulher pense em abandonar a sua função esthetica para se tornar força – querendo provar ao homem que pode competir com elle, ou pelo trabalho, ou pelo pensamento.

Quando este desafio se realisa, a moral da mulher desaparece e a familia torna-se impossível.

É o que sucede nas regiões onde a mulher trabalha mais que o homem, e é o que succede nas sociedades européas, onde a mulher procura ser superior ao homem, ou pelo espirito falado, ou pelo escrito.

Daqui, resulta que para a mulher moderna ha apenas dois caminho a seguir – ou o salão, ou a familia.

Quando a familia é simplesmente salão, a mulher está perdida, porque é inutil.

Quando é simplesmente familia – todo o respeito que devemos ter por ella é pouco, porque imenso é seu coração.

M. P.


O Credo das Mulheres

1o – Creio no amor todo poderoso

2o – Creio que é cego, volúvel, caprichoso, exigente, tyrano, ciumento, exclusivista, incosequente.

3o – Creio que foi encarnado no matrimonio para padecer e morrer no lar.

4o – Creio em seus martyrios, em suas ditas e sua injustiça final.

5o – Creio que o talento, a discreção e a bondade da mulher podem triumphar de seu abandono.

6o – Creio que este triumpho é o maior a que pode aspirar a mulher nesse mundo.

7o – Creio que a belleza e o amor não são senão a primavera da vida e suas recordações a ventura dos que envelhecem unidos e o tormento dos que morrem separados.

8o – Creio que é preferível ser enganada a enganar e que vale mais a morte do que a traição, quando se ama.

9o – Creio que o perdão é filho do amor : que o maior castigo da ingratidão é o remorso.

 


A mulher

A minha admiração pela mulher é muito grande, porque vejo nella um ente quasi divino, que qual uma estrela brilhante, guia o homem, cego no seu egoismo, e forte no physico, pelo caminho do bem, do dever e do direito, levando-o, ás vezes, ás lutas infinitas da glória.

Quantas e quantas vezes o nosso barco, navegando no mar encapellado da existencia , deixa de ser tragado pelas ondas da desventura ou ir de encontro aos rochedos da infelicidade, porque a mulher, com o seu coração puro como uma gota de orvalho e com a sua alma boa como o aroma suave de um jasmim, nos socorre e nos ampara com o seu conforto e carinha de mãe ou de esposa!

O seu míster na terra é o mais sublime de todos e, por isso, diante della todo o mundo se curva num gesto de admiração, de respeito e de entusiasmo. Este seu míster tem função dupla: ser esposa e ser mãe. O primeiro é bello e soberbo e grandioso; o segundo, sublime, admirável, divino. E ella, fragil e delicada com as rosas que se ostentam nas roseiras para dar desempenho cabal na missão que lhe compete, quasi sempre, sofre, mas resignadamente, e, quando as lágrimas lhe querem humedecer os olhos, um sorriso meigo lhe aflora nos lábios.

Como esposa, rainha que é do lar, embora cercada de conforto e alegria, intimamente ela sofre porque deseja que a alama daquele que é unido a ella pelos laços do amor percorra o mundo nas azas da felicidade e isto póde nñao acontecer, porquanto os revéses da vida, às vezes, aparecem, acarreando grandes tristezas.

Mas a sua alma dolorosa alcança o extremo quando se torna mãe. Dahi em diante ella vae, gradativamente, até o fim da existência, torturando o seu coração com o sofrimento que dignifica, enaltece e sublima. Em nada mais ela pensa além do lar.

Ella sofre quando o fruto do seu amor vem ao mundo para receber a benção de Deus e o calor vivificante do sol. Sofre quando, ás tardes, embalando o filho no collo, pensando que a morte cruel possa cobril-a com o seu manto de horror de um instante para outro, talvez sem ter tempo de criar aquelle que lhe é tão querido, porque é carne da sua carne e o sangue, e deixal-o no mundo quando elle mais necessita dos seus carinhos. Sofre quando o filho já está mais crescido, temendo que os maus sentimentos invandam a sua alma ainda em flor, na primavera da existência. Sofre quando elle já está moço, por não saber se o caminho que o levará ao fim da vida será bem ou mau. E muitas vezes o filho, por quem ella deu toda a sua alegria, lhe paga com ingratidão, mas morre perdoando, porque mãe não guarda ressentimento e, enquanto a terra fria lhe cobre o corpo a sua alma entra, sob o cantico dos anjos, no céu, ahi encontrando a recompensa de Deus.

Em cinco palavras, podemos resumir a vida da mulher que cumpre com o seu dever: nascer, ser mãe, sofrer, morrer.

A natureza deu ao homem espirito e physico fortes, sendo capazes de resistir ás torturas da vida, mas a mulher, dotou-a de sentimento, carinho e pureza que fazem com que todos nós nos curvemos diante della e que lhe coloquemos na frente uma côroa de glórias feita com as rosas da gratidão

Macario de Lemos Picanço

*

Escolhe uma esposa da qual possas dizer sempre:
– Poderia achar outra mais bella, mas não melhor. –

Pythagoras

 


 

Em outro texto dissertam sobre as crenças das mulheres, insistindo no mesmo argumento de perdão, que a mulher deve preferir ser enganada antes que  enganar, e que o seu dever é padecer e morrer no lar. Deve aceitar uma vida de sacrifícios e sofrimentos para que o homem possa triunfar no mundo exterior.

Mas pouco a pouco a coisa foi mudando, para 1919 aparece a iniciativa do Centro Feminino de Estudos Sociais, dentro do espaço da Liga Operária, um lugar de reuniões, bailes, eventos, cursos, palestras, com o ideal de unir e educar aos trabalhadores da sociedade, principalmente negra, de Pelotas.

O Centro tem uma muito boa acolhida, edita diferentes livros e folhetos informativos, e nas páginas da Alvorada aparecem os primeiros discursos de mulheres para mulheres. 

Em 1933 Creoulo Leugim (pseudônimo de Miguel Barros, o pintor Mulato) publica «Negra!» na capa d’A Alvorada onde um homem fala de igualdade com as mulheres, e afirma que o caminho para a verdadeira emancipação é o conhecimento.

As ideias conservadoras e progressistas sobre a emancipação da mulher estavam presentes ao mesmo tempo nas páginas do jornal, dialogando em alguns momentos. 

 


 

Negra!

Pouco ou nada sabes a respeito, do estado de evolução da mulher moderna.

Nos centros adeantados, ela já está hombreada com o homem.

– É preciso que quando se fale em mocidade, juventude, em educação, em evolução, tu compreendas que fazes parte desta mocidade, que á ti interessa tambem a educação, que tambem tens que evoluir,

– Tu deves educar-te, instruir-te, lêr outras cousas além dos romances futeis…, banais…

– Deves libertar-te do jugo que tens sobre ti.

– A vida atual está a exigir o máximo de cada pessoa.

– Daqui para deante cada qual valerá pelo que sabe, pelo seu próprio valor.

É preciso que estejas com a mentalidade temperada, forte, para resisitires aos embates da vida atual.

– Deves estar na luta junto ao homem.

– A mulher não é inferior ao homem ; ela pode tanto quanto ele.

– O estado aqui da educação da muher é o culpado do pouco desenvolvimento desta.

– Equiparai, dai instrução a mulher e verei o seu valor tambem.

Tratando-se como aqui se trata, do incentivo da educação, não poderia deixar de dizer algo á mulher, esta que se acha em miseravel abandono.

– Mulher educa-te e terás a tua emancipação.

Creoulo Leugim


 

Textos escritos por mulheres


Antonieta

Antonieta G. Avila foi uma importante colaboradora da Alvorada, e uma das vozes femininas mais presentes, com um discurso franco e incitando a educação como forma de emancipação da mulher. Recebeu cartas de outros leitores e respondeu algumas nas páginas do semanário.

 


Falta de educação e atestado de ignorancia

Ha dias tive o prazer de conversar com duas camaradinhas, sim porque amigos são os meus dentes e assim mesmo as vezes me desconhecem, eis que neste meio tempo chega outra jovem bastante socialista, jovem esta que se fás representar em tudo.

Conversa vai e vem, assunto trás assunto, e uma dirige-se á mim desta maneira :

– Então Antonieta, como vamos de “A Alvorada» ? Muitas colaborações, muitas críticas ?

Ao que respondi :

– Ora, o que queres tu com ela, sempre garbosa e triumfante !

Continua a referida jovem :

– Estes negros da “A Alvorada» são uns idiptas ! Querem a todo custo educarem o povo pelotense e julgarão que com essas tolices eles vão se endireitar ?

Como são loucos, gastam tempo e papel e o povo ainda zomba deles.

Perguntei-lhe como se chamava, respondeu-me Marina.

Perguntei-lhe ainda se não tinha medo de ser criticada, o que respondeu a ignorante jovem :

– Ora, só o que faltave meu nome estendido nesta “porcaria» sem importância.

Sim jovem, sabemos que não é com essas colaborações que vão se educar, mas eles querem mostrar que possuem educação bastante capás para repartir comsigo, que não tem nenhuma e para quem mais precisar, porque a pessoa que tem capricho e vergonha logo dirá a educação é grande coisa, e logo procurará educar-se, para ser negro valorisado.

Triste de nós, se não houvesse na raça etiopica gente educada e culta, então iriamos todos pelos ares e seriamos verdadeiros lacaios da raça branca.

Camaradinha Marina, não me queira mal, mas aceite este conselho que vou-lhe dar : O tempo que anda dizendo tolice propria de gente sem educação e cultura, (como infelizmente esta a jovem), deve procurar uma aula para estudar, aprendendo assim nos livros a educar-se, afim de não mais mostrar a sua falta de educação e nem dar atestado de ignorancia como o que deu.

Depois de aproveitar os saos ensinamentos que nos fornecem os livros então dirá :

Quão util e proveitosa foi a Campanha Pró-Educação que “A Alvorada» o mensageiro da educação e da alfabetisação, encetou em suas colunas.

Antonieta G. Avila

Que é a Sociedade?

A sociedade é o templo aonde nos divertimos com prazer e orgulho, mais temps que respeitala para que ella seja grande e valorosa.

Devemos lembrar-nos que quando entramos nella é para agradar e satisfazer a todos, ha jovens que dão-se ao trabalho de sairem de casa sómente para dançarem com seus noivos ou namorados ; ora para isso bastaria em casa, ao som de uma vitrola a tcar, dançarem os dois, mais não falo aqui em todas.

Se um cavalheiro vem tira-las para dançar saem de má vontade, fingindo não saberem dançar e depois dizem aquelle velho veiu-me tirar, pizei em seus pés, fiz uma cara bem feia para elle não tornar a tirar-me.

Ah jovens eis o grande esso e isto faz parte da educação. Ora nós que já passamos pelo desgosto de sermos diminuidos por termos a pelle preta, (apezar de que isso não passa de ignorancia), senão praticar-mos bons actos maiores desgostos teremos a passar e mais tetrico será o nosso modo de viver.

Queridas amiguinhas, não é só bailar, dar gargalhadas insolentes, galhofarem uma das outras, atirarem-lhes defeitos que não possuem, maculando assim suas virtudes, é necessario que divirtam-se, mas é mais necessario que eduquem-se, porque este é o ponto primordial, uma vez educados desaparecerão todos estses defeitos que tanto mal faz e então seremos valorisados, grandiosos e a nossa sociedade esta que na época actual vive com o pé no cadafalso, sairá fóra desse perigo e será não sociedade, mas sim, um templo, aonde nos orgulharemos de entrar, porque nos enobresse e nos dignifica !

Quanta falta de educação e civilização mostramos, quando em um recinto social qualquer uma pessoa tem que falar aos presentes, ouvem-se de ambos sexos gargalhadas estridentes, que tanto nos deprimem, não envergonham-se de uma pessoa da raça que nos visite, que vem mostrar o grau de cultura de sua terra, ainda fazem pior e quando esse forasteiro chegar em seu meio educado e civilizado, o que não dirá de nossos costumes, do nosso atraso e da nossa terra ?

E é por isso que dizem : Pelotas, é a terra do orgulho e da pomada ! E eu digo, mesmo sendo minha terra : Não é a terra que tem culpa, é o atraso e a falta de educação de seus filhos !

Falamos um pouco dos homens, mais não de todos.

Julgam alguns que a sociedade é campo de batalha, por da cá aquella palha formam uma balburdia, desmanchando os prazeres humanos e dizem que são valentes, isso meus irmãos, não é valentia, é atraso, é falta de civilização, é falta de cultura !

Educae-vos e verás como desapparece essa nuvem densa de ignorancia que vos venda os olhos, pricando-vos de enchergarem o que é bello, lindo e maravilhoso, a EDUCAÇÃO !

Educando-te, educarás a tua e a nossa sociedade.

A educação e a alfabetisação é a alma da nacionalidade !

Educae-vos meus queridos irmãos e irmãzinhas e verás como sereis respeitados e valorisados, a educação te proporcionará horas felizes !

A educação faz a alegria e a felicidade no lar.

Antonietta G. Avilla


Em 1933, textos como os da Tania que anima as trabalhadoras domésticas a sindicalizarem-se, buscar instrução e defender os seus direitos, chamando a atenção para o dever moral dos patrões de não forçar relações  com as empregadas de melhor aparência, conviviam como os de Macario, que eram os mesmos de 1910.

 


A Mulher trabalhadora

Enquanto nestas frias manhãs de inverno a mulher de uma casta privilegiada pelo dinheiro dorme regaladamente debaixo da morna maciez dos conbertores de lã, a mulher trabalhadora, operaria ou creada de ricos, levanta-se tiritando do frio intenso que penetra desabusadamente pelas paredes esburacadas do miseravel casebre, dando á sua pele maltratada e quasi despida pela pobreza das vestes, a sensação dolorosa de vergastadas(sic) de aço…

E lá se vai a pobre lutadora sem esperanças, amrgar as rudes horas de trabalho das fabricas ou levar servilmente o café com leite e as torradas á senhora patrôa que se deixou ficar na cama numa doce indolencia, dando trabalho apenas ao cerebro atopetado de modas, escandalos sociais, maledicendias e cinemas.

E so o dia sombrio e enregelante, deixa permanecer a geada que se encaranga as mãos das infelizes vitimas da deshumana desigualdade social, a pobre creada não lava a roupa que está a corar desde a véspera ou não cumpre com rigor as ordens superiores da virtuosa patrôa… E quando a senhora que faz parte de todas as instituições de caridade e que é filha de todas as seitas religiosas meis em moda – levanta-se do ninho luxuoso e depara com a falta de capricho da católica vitima de seu dominio, não raro a põe pórta a fóra, sem ordenado, lançando-lhe os mais veementes impropérios de que é capaz uma dama que figura  com relevo em obras sociais de benemerencia…

É que creadas não faltam. A miséria que dia a dia mais se acentúa e aumenta nos lares operários, dá aos trabalhadores a necessidade de se submeterem as mais absurdas exigencias de seus exploradores.

Todos os ramos da atividade humana estão formando seus Sindicatos.

Porque não fazem o mesmo as trabalhadoras domésticas?

Porque não se amparam mutuamente, organizando-se?

A união faz a força- Unidas poderiam conferenciar, estudar meios de tornar mais humano e tolerável o arduo trabalho de escravas domesticas que outra coisa não são as modestas cozinheiras, lavadeiras, copeiras e todas essas infelizes lutadoras que se alugam, muitas vezes apenas pela comida como os animais puxadores de carroças…

Mulher trabalhadora! Sindicaliza-te e desperta da nefasta cadeia que te oprime, aniquilando tua força e destruindo tua propria vida.

TANIA

Maio, de 1933

 


 

Secção Femenina

A Secção Feminina ganha espaço e se converte em fixa em todas as edições d’A Alvorada, com diferentes colaboradoras e incitando as mulheres a participar, sempre estimulando a educação feminina, que passa a ser o tema principal da maioria dos discursos.

 


Secção Feminina

Igualdade?

Se todos os meus irmãos de raça, que pela inteligencia se encontram em posições elevadas, se unissem, a raça negra por certo estaria em outro plano, mas tal não se dá, pois desprezam seus semelhantes ao ponto de humilha-los.

– Por que?

MIlhares de vezes tenho feito essa pergunta amim propria. Por acaso não somos todos pertencentes a gloriosa raça de Monteiro Lopes?

Nao seria para nós um orgulho, uma glória, se pudessemos elevar para bem alto nossos irmãos?

Oh! quem mais competente para tal, senão esses de nossa raça que mais luzes possuem?

Infelizmente, entre nós, os pretos, não existe união, trocam-se por vistuarios, posições e iludem-se pelas aparencias, que o mais das vezes nos enganam. Porém só deviamos encarar a realidade, que é o talento e o cultivo, auxiliar na santa missão de ilustrar espíritos, enaminhando os para o progresso e a Instrução.

Dar luzes para que compreendam que o nosso único desejo é elevar  e tirar das trévas em até hoje viveram os descendentes desta valorosa raça, arrancada da longinqua Africa.

Sómente pelo embrutecimento de uma e orgulho de outros é que devem os negros nacionais o seu deplorável estado.

Mas assim não deve continuar, temos que reconhecer que deve haver igualdade entre todos.

Não vos deixeis levar pela sabedoria para o caminho da Vaidade, sejamos amigos, meus prezados irmãos, procura viver sempre ao lado dos teus que serás tratado como mereces pelo teu saber, mas nunca ao lado daquêles que zombam de ti. Si amas a tua raça, sentirás que sobre ela se lancem calunias, mas, se ao contrário, será indiferente o que te disserem.

Peço as minhas amiguinhas que se unam a Frente Negra Pelotense, para que nãoseja tanto o trazo em nossa raça, para que amanhã possamos juntas cantar um hino de glória pela cultura e educação de nossos irmãos.

Brigidas  Lopes


Secção Feminina

Mães, cuidado

Por que todas as mães quando chega o dia de Natal gostam de dar surprezas para os filhos em nome de Papai Noel?

Muitas vezes mães pobres, fazem sacrificios, mas nunca deixam de oferecer este ou aquêle mimo, por simples que seja.

Porque talvez se acham satisfeitas de verem as crianças alegres, mas em geral nenhuma quer passar sem este sacrificiosinho.

Por que não fazem a mesma cousa com a Instrução?

Se todas as mães observassem como é belo, como ñe sublime, como é um dos principais fatores de felicidade a Educação, acho que não haveria uma só que deixasse de fazer sacrificios, os mais elevados, para manda-los educar. Seria para elles, todavia redundaria mais tarde em proveito de vós, mães, que na maioria vivem numa inconciencia alarmante.

Muitas vezes um filho despido de instrução, educação, etc…, deseja que sua mãe lhe prontifique um trabalho qualquer, para isto lhe faz o pedido, que na maioria é feito empregando termos do mais baixo calão, ao fazer o pedido sai, quando volta não encontrando o que havia solicitado pronto, embora sua boa mãe lhe mostre a razão porque faltou com o prometido o mesmo não aceita justificação alguma e pega e ofende-la com palavras picantes, entrando no terreno da imoralidade, ataca-a com palavras tão fortes, que só em virem ao pensamentoé um crime, não contente com isto, chega ao cumulo de querer espanca-la, o que muitas vezes realiza.

A mãe na sua revolta oprimida, sai a dizer: Sou uma desgraçada, uma infeliz, pois quando estão doentes sou tão boa, faço as vontades, e no fim, só recebo ingratidões.

Pergunto, eu – A quem cabe a culpa?

As respostas são varias, mais talvez uma das que mais se coadune(sic) com os fatos em questão, seja que a mãe não se lembre de ser a maior culpada, pois devido a educação falha que recebeu, e em geral transmite aos filhos, o resultado é sempre miserável para ambos.

Vejamos o caso em que a mãe lhe transmitisse uma sólida e sã educação: O filho chegaria com boas maneiras, explicava o que desejava com palavras delicadas, o que desde principio conquistaria a boa vontade e cativaria a «velha». Ainda outro dia, que ele desejasse algo, éla, a boa mamae, tudo abandonaria para servir ao bondoso, educado e instruido filho.

Eis o porque de tantas infelicidades de um lado e de um pouco de harmonia e mães felizes de outro lado.

Sobre o mesmo assunto farei outro artiguete.

Arací



A Campanha Pró-Educação impulsionada pelo A Alvorada, unida com as novas ideias trazidas pela Frente Negra inspiravam e provocavam intensos debates e argumentações nas páginas do jornal.

A velha guarda representada por Armando Vargas e Rodolfo Xavier compartilhava espaço com novas vozes femininas que incitavam a mulher a buscar educação, tanto intelectual como moral. Num apelo à cordialidade e a um pensamento de grupo, onde os atos de cada um repercutem na imagem de todos.

Os bailes eram o grande ponto de encontro e diversão da sociedade negra, mas também era um lugar de conflitos, de intrigas, traições, brigas e mau comportamento.

 


Coluna da
Legião Feminina

Sem instrução é um tédio mortal…

Sem instrução não podemos viver, porque ela é uma fonte cristalina, que refresca o espirito e sacia a mais devoradora sede ao viajor.

Lá bem ao longe onde não se avistam senão trevas de horrores e solidão profunda, o que é o que nos consola? Uma carta de quem deixamos distante de nós… E quando por ventura sabemos ler tremulos, apertamos sore o peito, levamos aos labios e como se fosse um tenue fio d’agua que viesse a refrescar o espirito, fortalecer o cérebro e estinguir os mais tristes pensamentos e começamos aler. E sem leitura meus cavalheiros e caras colegas? como poderiamos viver cobertos com o negro manto do abandono, abandono sim, porque a leitura é a nossa melhor amiga depois de Deus, e nossa mãe.

Tanta gente sem instrução e não buscam este caminho tão consolador das terriveis aflições.

Se não fosse a instrução como poderia eu afrontar os dias mais tristes em minha vida sofrendo as horríveis saudades que trazem de segundo em segundo os pensamentos mais angustiados em meu ser. O meu estado físico e arrebatada pelos sofrimentos; mas, o meu cerebro eu o trago fortificado com o precioso liquido da consolação.

Que é a leitura!

Maria Luíza S. Torres.


 

Uma parte da juventude intelectualizada questionava o valor moral dos bailes, e aconselhava a educação, a leitura, e o debate como forma de emancipação verdadeira.

Progredir é um dever, afirma Suetania, e Maria Luiza incentiva a leitura como libertadora.

Um problema que se enfrentavam as boas intenções da Frente Negra e as suas palestras era o pouco interesse que levantavam numa parte grande do grupo, nos bailes as pessoas não prestavam atenção e conversavam, enquanto alguém palestrava sobre algum tema relacionado com dignificar a raça negra, sempre incentivando a educação como forma de progredir.

Armando Vargas estimula aos pais a dar a melhor educação aos seus filhos, e Creoulo LEUGIM segue claro e incitando ao fim das disputas entre negros e apontando o caminho da união como libertadora, vivendo numa verdadeira igualdade.

 


 

A EDUCAÇÃO FEMININA

Doloroso é falarmos na questão da educação feminina em nósso meio, tal o descaso de tantos pais e tantas mães, para com esta máxima necessidade. Doloroso porque as nossas irmãs de raça desde que nascem, começam a aprender: ou a lavar vidros e panelas ou a usar pó de arrôs e rúge. Aquélas criam-se no serviço da coperagem e ficam eternamente crentes, que negrinhas como elas, nasceram para ser as «tias velhas da cria do seu dotô fulano». As outras, as que se criam botando pó de arrôs e rúge, no rôsto, ficam vaidosamente crentes, de que são alguem na vida, e que não sevem se juntar com «as copeirinhas» que ganham o pão, trabalhando honestamente e arriscando a perderem a honra, quando suas fisionomias são do gosto de seus patrões… ricos.

A falta de um método educativo para nossa gente, não é a origem desse estado de coisas.

Falta é que os chefes de familias, saibam cumprir os seus deveres. E como cumprir esse dever? É justamente ensinado a criança, a viver a vida real, isto é, mandando-as á escola leiga, aprender a origem de tudo, e a formação social, política e etnologica da nossa nacionalidade. Devemos proporcionar a mulher moderna, os conhecimentos reais sobre os deveres que terão de cumprir, quando forem noivas, esposas e mães.  Não é exagero, dizer-se que ha mães que nunca souberam ser esposas e esposas que nunca saberão ser mães…

É que as nossas irmãs que se criam na cozinha, julgam que as suas filhas devem ir também para a cozinha dos seus «doutôs» e aquelas que, viveram enfrente aos espelhos, só desejam que suas filhas, com as unhas côr de braza, cutis rosadas e com uma pastinha cheia de moldes da Academia de Cortese Bordado se cazem com aquele «moço branco» para sair uns netinhos «adorados». Não importa que aquele «moço branco» venha com a brancura da pele «sujar» muitas vezes a familia com uma moral decadente… a coisa si ageita com a fusão afro europeu.

Rarissimas são as nóssas irmãs de Raça, que saiba: ler e escrever corretamente, lavar , costurar, bordar, recitar, cantar ou tocar música, fazer contas, falar sobre a raça, política ou outro qualquer assunto nacional. Nem mesmo as nossas mais ilustradas irmãs, podem ser arguidas em qualquer assunto. Elas pouco sabem, além da cozinha, ou aquem do pó de arrôs…

É esta mentalidade na nossa gente de saias cumpridas mas de curta ilustração. Urge portanto que nos façamos paladinos de uma nova formação mental compativel com as novas gerações progressistas e masi interessadas na questão da nossa educação feminina. Não devemos culpar o nosso estado de servilismo.

Progredir é um dever!

SUETANIA

 

CAMPANHA PRÓ-EDUCAÇÃO

Coluna da Legião Feminina

A Falta de Educação

Eu, aqui neste meu humilde artiguete, refiro-me a certa estirpe de moças e rapazes, que pensam que o dançar é que os trazem na ponta e que os que não sabem dançar ou por outra não gostam, não tem o mesmo direito na sociedade ou qualquer outra lugar, assim como eles o tem. Meus amiguinhos, deixem de pensar em semelhante asneira; tanto direito tende como eles.

Ultimamente dentro da sociedade encontra-se tambem, tantos imbecis, tantos ignorantes, tantos etiópicos incultos. Eu lastimo muito, mais o que é que eu vou fazer? Vós sôis os proprios culpados. Sabe-se tambem que a sociedade faz falta, mas a educação faz mais, porque vós sem a educação não tendes valor em parte alguma, isso eu vos afirmo. Uma sociedade bem organisada é muito bonito, é bélo, belíssimo… Mas, falta em vós, ainda educação, uma grande falta de educação e moralidade.

Não digo que esta falta de moralidade exista em todos e sim na maioria. E esta falta de moralidade, existe tanto no sexo masculino, como no feminino.

Nota-se isso num baile, porque quando um orador vai falar num recinto desse, causa naúzeas ver-se a barulhada e o zum zum que fazem. Que tristeza! Que lastima!

Isso minhas meninas só é proprio de gente ignorante, de gente sem compreensão e sem cultivo. Parece incrível que em pleno século XX, encontr-se, ainda negros tão selvagens. Isso tudo é a falta de educação que em vós existe.

Havendo bastante diversão extravagante, não precisa mais nada. Que triste! Que triste!

É como eu vos digo, os nossos irmãos de raça querem dormir o sono da eternidade inundados no lodaçal. Meus amiguinhos, alistai-vos pois, no batalhão da «Frente Negra» que vós tirareis mais resultado, do que estar empregando o vosso tempo em coisas inúteis, porque beber, jogar, por vicío dansar sábado e domingo, é uma perdição. Além de perdição é uma desmoralização para vós, para os vossos, e para vossa raça também… Porque se não procurardes darem-se valor, o branco não é que os vai valorizar, porque bem sabeis que quando se fala num roubo ou coisa mais feia ainda, logo os brancos comentam, dizem «Isso é cousa de negro?! negro, sempre é negro!» Quando muitas vezes os proprios parentes são os peiores autores de feas cousas por elos tão comentados. E, os pobres negros é que marcharam. Só o negro é que tem defeito.

Tudo isso porque os negros não procuram elevar-se, dão tempo para que os brancos façam todas essas suposições más. É por isso que a «Frente Negra» procura vôs desarraigar desta obscuridade. Vois deveis deixar de tanta perdição, deveis ver que a educação está em primeiro lugar. Porque gente sem educação só são dignos de nossa lástima. E vós minhas amiguinhas, deveis deixar de ser, tão presunçosas e vaidosas, porque uma moça modesta e cometida tem o seu lugar, enquanto que uma presunçosa só é odiada. Seja deante de quem fôr, devem proceder de modo a mostrar bôa educação. Meus amiguinhos, mostrai que é com afeto e sinceridade que amai vossa raça! Desapegai-vos de todos mundanos. Cautivai-vos. Educai-vos. A ultima Romantica para que não ignoreis mais quem seja me assino

Marina Nunes Furtado.

Pelotas, 23 de Setembro de 1934


 

Uma divertida crônica social de Suetania nos revela detalhes das mais belas moças e dos melhores vestidos do baile.  Um texto cheio de detalhes, nomes e descrições de personalidades da sociedade local.

 


As mulheres e a móda…

O salão dos tricolores, artisticamente ornamentado, estava lindo e maravilhoso. A cordialidade que reinava, a alegria expontania que brotava do coração de todos que ali estavam, comunicavam se com a musica deliciósa que tocava, promiscuindo sôns com enlêvos, o que transformava o ambiente exuberantemente festivo, num jardim florido, onde as beldades do nosso escól, cativavam-nos pela elegancia de seus trajes e belesa de suas personalidades. Maria Gonçalves Souza, no esplendor de sua radiósa mocidade, com aquela fisionomia, á par de tão languidos ólhos azues e tentadores, estava sedutoramente trajando um bélo, quão simplissimo vestido, em diafano organdi, o que mais fazia realçar a belesa de son corps plasticamente escultural. O seu traje tinha apenas sobre a saia, um estreito babado e uma original góla em forma de pétalas, que prendia-se a um colar em córes, que trasia ligado ao pescoço. Singeleza absoluta! Maria Souza, imperou pela sua adoravel individualidad e não pelos artificios dos figurinos. Estava simplesmente linda! E aristocratica, quando com aquele chales maravilhoso. Elsa Souza tambem estava béla, com seu traje para soirée, todo alvo e mangas em estilo de capinhas, saia longa e elegante.

Judite Carvalho, lá estava ostentando bélo traje branco, que ficou mais lindo ainda dado o aplumo de seu corpo, esbelto. Mas tratando-se de indumentaria não se deve nunca considerar a belesa fisica (pessôa) como fator para um julgamento da belesa artistica do objeto (vestido). Assim sabiamente julgando, foi, estamos certo, que Conceição Viseu, por reunir mais elementos fez jús a um premiosinho, sobre a originalidade das suas véstes. Conceição ostentava elegante vestido. Original e sintético. Tecido eburnêo, rajado com fios lustrosos. Saia não muito longa e com bastante róda, formando godets. Diversas tiras enviesadas e ligadas entre si, volteavam o corpo, até a altura do busto, de onde, ao lado esquerdo via-se uma fileira de botões rubros, assinalando o local por onde surgia uma mantinha que volteando o contorno do pescoço, ia cair artisticamente sobre o hombro oposto, exprimindo o ideal do artista creador, que talvez se inspirasse em uma torrente cristalina que jorrava suas aguas murmurósas, pelos magestosos recifes, onde refletia-se a luz branda, alva e fria do romantico luar!

Uma flôr vermelha prendia sobre o lado esquerdo, do vestido. Atraz, nóva serie de botões Esparsos pelas costas, com gôsto, ou em simétrica combinação.

Real prova de fino estilo creador! Nair Carvalho e Eloá Duarte estavam chics. Diva Lima, tambem tinha um vestido com mangas bem originais.  Judite Chagas apresentou-se corréta, vestido branco e bélo, com mangas em forma de tulipas e com grêgas prateadas.

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Mulheres e modas. Saber trajar pertence a nóssa educação. A mulher não deve descuidar desse dever feminino. não basta trajarmos com luxo. É preciso escolher, com gôsto, os nossos vestidos. Uma jovem linda com um vestido inadatavel a sua pessoa não mostra ter inteligencia…

Suetania


 

Em 1935, uma importante capa deixa o espaço para as mulheres, que publicam um texto que reivindica a identidade negra através da guerra que nesse momento acontecia na Etiópia. 

A Itália de Mussolini tentava recuperar uma pretensa «honra» perdida numa batalha anterior que falhou em conquistar a Etiópia, e animado pelo movimento fascista invadiu a «Abyssinia» com o argumento de levar a civilização aos bárbaros.

Nessa época era comum que os negros se intitulassem de raça etiópica, se acreditava numa espécie de «pureza negra» dos etíopes que nunca foram «colonizados», mas esse mito era falso. 

De qualquer maneira é muito interessante ver como agora é uma mulher quem questiona as decisões masculinas e convoca outras mulheres para combater esse machismo com união e intercâmbio de conhecimento.

Alguns homens aceitam a emancipação feminina, mas sempre com pequenas reticências, são poucos os que assumem e estimulam a independência verdadeira da mulher.

 


A valorósa mulher Brasileira e a heroica mulher abissinia!

Solidariedade e protésto pela Paz e pela Humanidade

Mulheres do Brasil! – O attentado que a Italia fascista está praticando contra a soberana Abyssinia deve ser para nós mulheres do Brasil um signal de alerta e um appelo à união de todas as nossas forças em defeza da Paz e da Humanidade.

A História está registrando uma guerra das mais injustas e das mais barbaras. Nem tratados, nem direitos, os mais elementares dos povos, são respeitados; atenta-se mesmo contra a dignidade e a personalidade humana; ameaça-se destruir acquisições culturaes do mundo – herança secular do trabalho incessante de varias gerações.

Em nome de uma civilisação «branca e superior» esmaga-se um povo livre sobre o fundamento de que ele ñe incapaz de se governar porque é barbaro, de se dirigir porque é negro. Barbaria é supprimir a liberdade de pensamento; é prender, desportar pensadores e scientistas; é fabricar theorias pseudo-scientificas, com intuitos politicos, com a theoria da inferioridade das raças; é queimar livros; é fechar laboratorios.

Os empreendedores das guerras se utilizam para satisfação de suas ambições. da inexperiencia das mulheres, incutindolhes o espírito guerreiro, explorando o seu sentimentalismo, fazendo lhes crer que existe uma guerra justa e necessaria – aquela que vem para depurar a Humanidade e «salvar o mundo da barbaria». Mussolini affirma que a «guerra é para o home o que a maternidade é para a mulher – uma necessidade.

Mulheres brasileiras! Ergamonos contra esta exploração dos sentimentos femininos; contra as mentiras dos armamentistas; contra os massacres guerreiros actuaes e vindouros. Esqueçamos as diferenças que possam existir de crenças politicas religião e cultura e collaboremos na campanha de esclarecimento cultural, de demonstrações pela Paz. Attendamos ao apelo das mulheres abyssínias, nossas irmãs que heroicamente luctam de armas na mão, em defeza da soberania de seu paiz,e constituamos o Cômite Feminino Contra a Guerra em defeza da Paz Universal, da Cultura e da Humanidade. (A. A.) _

Maria Lacerda de Moura escriptora; Joana de Lopes, media; Italia Fausta, artista; Armanda Alvaro ALberto, professora; Leila Figner, pintora; Maria Diana Brito, advogada; Iveta Ribeiro, escriptora; Lídia de Freitas, jornalista; Laudimia Trotta, professora; Nise da Silveria, media; Eunice Weaver, escriptora; Eulina Nazareth, professora; Eugenia Alvaro Moreira, artista; Maria Ignez Coutinho Ferreira, chimica; Medéa Moreira Lima, professora; Maria Mercedes Mendes Teixeira, escriptora; Heloisa Alberto Torres, professora; Olga navarro, artista; Maria Vermeck de Castro, advogada; Consuelo Barreto de Menezes, professora; (seguem outras assignaturas).