O Primeiro Congresso Afro Brasileiro

O Primeiro Congresso Afro Brasileiro
25/03/2024 Jorge

Enquanto era redator da Alvorada Miguel foi o enviado do jornal ao I Congresso Africano Brasileiro no Recife. Era um evento imperdível para essa geração, organizado pelo jovem sociólogo brasileiro Gilberto Freyre.

Para costear parte da viagem e poder ir ao congresso o jornal organiza uma rifa com um quadro de Miguel Barros, que levará outros dez para vender em Recife e assim costear o resto da viagem.

O Congresso reuniria todas as possíveis representações do negro na sociedade e na vida brasileira.

Foi o ponto de encontro de pessoas fundamentais na cultura do país como o próprio Gilberto Freyre, que a posteriori do congresso escreve a sua obra fundamental «Casa Grande e Senzala».

Também participaram jovens escritores e artistas comprometidos com a história do negro no país como Dorival Caymmi ou Jorge Amado, entre outros intelectuais e artistas como o jovem Miguel Barros.

O luxuoso teatro de Santa Isabel, frequentado pela elite açucareira pernambucana, é palco do 1º Congresso Afro-Brasileiro realizado no país, organizado pelo sociólogo Gilberto Freyre. Durante seis dias, pesquisadores, artistas, músicos e demais interessados discutirão a base africana da cultura brasileira — principalmente a pernambucana.

A programação do congresso foi bem variada. Tinha apresentação de trabalhos de etnógrafos, sociólogos, pesquisadores sobre folclore e arte popular e até visitas a terreiros de babalorixás do Recife. O salão nobre do teatro abrigou exposição dos pintores Cícero Dias, Luís Jardim, Di Cavalcanti, Noêmia Mourão, Manoel Bandeira, Tomás Santa Rosa e Tarsila do Amaral, entre outros. Francisco Rebolo expôs fotografias de motivos afro-brasileiros.

Também havia uma exposição de objetos de cultos afro-brasileiros e de arte popular, como bonecos de maracatu, esculturas de barro e de madeira, figas, bandeiras e outros trabalhos. No dia 16, seria a vez das músicas afro-brasileiras.

Gilberto Freyre comentaria depois que durante todo o congresso, “uma negra velha, com seu fogareiro, seu vestido de baiana, seu xale encarnado, assou milho e fez tapioca de coco” para os participantes.

©  Memorial para a Democracia | Instituto Lula | Link: http://memorialdademocracia.com.br/card/aberto-o-1o-congresso-afro-brasileiro

 

 

A F. N. P. e o I Congresso Africano Brasileiro

Far-se-ão os negros Rio Grande do Sul representar?

A esse congresso que dará uma demonstração cabal do que foi, o que é e o que fez a raça negra no Brasil, muito util seria uma representação da F. N. P., unica organisação no genero no Rio Grande, e em condições para levar o seu brado de apoio, á essa iniciativa que deve avançar e tomar vulto para maior gloria da Raça no Brasil.

A F. N. P. está estudando as possibilidades para tal.

 

Pela nossa representação no I Congresso Afro-Brasileiro

Para que o esforço de todos frentenegrinos, que são homens concientes, seja conhecido e ampliado no Brasil e no mundo; a F. N. está realizando o sorteio de 1$000 de uma das belas telas de Barros.

O apoio deve ser unanime, dos descendentes etiopicos.

M. Barros, representará a F. N., levando consigo uma coleção de quadros nos quaes fixa aspectos da raça gloriosa de Patrocínio.

N. B. – Todas as pessôas, que queiram nos auxiliar, ensta campanha, poderão procurar bilhetes na redação d’A Alvorada.

VARIAS

A Frente Negra Pelotense convoca uma Assembléa Geral Extraordinaria, terça-feira, dia 12, na sede provisoria, a rua General Ososrio 603, para ser apresentado o Regulamento do emprestimo que esta agremiação pretende executar para adquisição de séde propria.

Também se comunica o Guarda Livros interino, o jovem Contador Lupicinio Ribeiro, que ocupará o lugar de Miguel Barros, enquanto este estiver viajando ao I Congresso Afro-Brasileiro em Recife.

Miguel Barros enviou cartas e relatos que foram publicadas no jornal.

A estância em Recife foi transcendental para ele, organizou a sua exposição, esteve entre os fundadores da Frente Negra Pernambunaca, e seguiu viajando pelo nordeste uma temporada.

O Congresso foi transformador para Miguel que criou um vínculo especial com Pernambuco, e resolveu mudar o seu nome artistíco e assinar os seus quadros com o pseudônimo de «Mulato».

Afro-Brasileiro

Recebido pelo escritor Gilberto Freire, uma das maiores expressões da intelectualidade moça do Brasil, que me prodigalizou um almoço, tomei desde lógo parte integrante do Congresso.

Senti lógo, que o Afro, não tivesse elemento de côr, propriamento dito, e que não houvesse ao menos tomado parte, como assistentes, os elementos de côr, em situações de destaque do Recife. (Sempre a mesma historia, dos que são mas não querem.)

Embora muitos intelectuais, tivessem boa vontade, não poderia passar despercebida esta particularidade, que para nós, negros, é a principal.

O Afro-Brasileiro, teve repercussão imensa, não ha duvida, despertou-se no norte do Brasil, uma onda de benevolencia, um pouco maior, nos «duvidosos».

O Congresso veio contribuir com seus estudos, para o conhecimento de nós mesmos.

A imprensa do Rio, Baía, Pernambuco, etc., tem publicado artigos sobre artigos, á nosso respeito.

O Afro, seria, hoje platonismo se não existissemos com nossas Frentes, para aproveitar praticamente, no terreno da organização no meio pratico, aquéles estudos.

O Congresso, veio aumentar o interesse dos intelectuais, para este motivo, até aqui, pouco explorado: – O Negro – Mas nós saberemos aproveitar, este platonismo estudioso, que levará nossa gente a se conhecer. E com a conciencia do proprio conhecimento, caminharmos na senda, de nosso progresso, de nossa evolução.

Creolo Leugim.

 

Campanha Pró-Educação

O representante da F. N. P., em Recife, acaba de fundar a “Frente Negra Pernambucana»

Folgamos em transmitir aos nossos leitores e aos denodados frentenegrinos gaúchos, que a F. N: P. recebeu o seguinte oficio: «Recife, 13 de Abril de 1935, Ilmo. Presidente da Frente Negra pelotense, Cordiais saudações. Tenho a subita honra de comunicar a V. S. a fundação da Frente Negra Pernambucana, sob a orientação do jovem pintor Miguel Barros, óra entre nós. Foi eleita a seguinte diretoria, que dirigirá provisoriamente os destinos da novel agremiação ; Presidente, Gerson Lima ; Secretario Geral, Solano Trindade ; 1o Secretario,  Eurides Passos ; 2o Secretario, Soares Mercês ; Tesoureiro, Vicente Sacramento, e um Conselho Deliberativo composto de 5 membros. Outrossim, junto á presente, a proclamação que dirigimos ao povo pernambucano por intermedio da Imprensa desta Capital.

Sem mais, aproveito o ensejo para levar a V. S. os meus protesto de alta estima e consideração.

Solano Trindade

Sec. Geral »

 

Campanha Pró-Educação

Pela Organização dos homens de côr – Vibrantes comentarios do Sr. Costa Rego

(Governador de Alagoas até a Revolução de 1930)

Rio, 23 – O sr. Costa Rego, ocupando-se do caso ocorrido em Garanhuns, cidade do interior desse Estado, relativamente á recusa, por parte da directora de um collegio, em aceitar como alumnos duas crianças de côr, diz em vibrante artigo assinado, o seguinte:

«… Não houve meio de obter a matrícula.

A revolta que o facto produziu foi toda em beneficio da cultura Brasileira. Objectar-se -á, quanto a isto, que negros intelligentes costumam figurar em situações de relevo. Com efeito há os deste gênero, mas tão poucos, vencendo tantos obstaculos que seu triumpho é sempre produto de uma luta amarga. Por um que vence, há inumeros outros que naufragam. Se não é hostilidade do meio é a precariedade da sua condição moral que os afasta das boas organiza}ões de ensino.

Nós imaginamos que a tinhamos definitivamente encerrado, a aprtir do momento em que foi abolida a escravatura. Na realidade, a aprtir dahi é que a creamos sob muitos aspectos. Nem poderia ser de outra forma, porque o negro não recebera a educação indispensável para ingressar no meio social, isto é, para saber ganhar a vida como ganhara a liberdade. E elle tinha direitos neste sentido. O braço de seus avós fundara no Brasil a agricultura ; fornecera á nossa independencia economica a mais acessível de todas as mãos de obra…

Evidentemente, os fundamentos e a propria feição da sociedade alteraram-se de módo completo após a abolição da escravatura. Mas o que essa abolição suprimiu foi um estado social e não o negro. Ao negro deu-lhe até um lugar entre os demais cidadãos. É esse lugar, que elle precisa ocupar, só pode occupa-lo com o preparo que requer a vida moderna.

Não há, entre nós, felizmente, lutas de raças. Seria por isto absurdo que pudessemos desejar como é o caso em certos paizes asiaticos,a sobrevivencia de uma casta de parias á margem da civilização. É exatamente integrando o negro no progresso da nossa vida collectiva que melhor o evitamos como problema…»

 

O talento e a emotividade do artista negro foram um dos pontos de encontro entre vários participantes.

Toda a tradição de ritmos africanos, que nos Estados Unidos os negros cultos sabiam que havia criado o Blues e o Jazz, tinham no país colocado as suas raízes nos terreiros e bairros pobres, onde diferentes ritmos conviviam com os recentes êxitos do Rádio.

A poesia era muito importante nessa época, e o texto destaca vários artistas e poetas negros importantes.

Texto de Diegues Junior publicado no Diario de Pernambuco sobre a influência do negro e das tradições musicais africanas na música brasileira e reinvindicando a alegria natural do preto.

Musica Afro-Brasileira

Diegues Junior

Aquella historia das «tres raças tristes» de Bilac foi de um efeito para chave de ouro. Effeito tão forte que até os sociologos acreditaram. Os nossos sabios, á lá minuta de Euclydes da Cunha, gostaram da rima tõa bonita e se pegaram a ella. Raças tristes. E elles procuraram demonstrar que entre ellas a superioridade aryana dominava. Mas esqueceram de ver que interiormente o negro estava pulando, vivendo no brasileiro com a alegria de suas danças e de seus cantos.

E se viu na musica brasileira que a sua parte mais interessante era a que vinha do negro. talvez mesmo porque mais adaptada á terra, ao sabro do clima e de causas ethnicas.

Os lundús tão gostosos, de um gosto morno á lascivia, encheram os serões das casas grandes de engenho e os salões aristocraticos da fifalguia lusa. Os sambas, sambas que matavam as idéas do pudor, fiseram a alegria de muitos pares de homens e mulheres enlaçados no requebro do seu rytmo. O côco, o côco alagoano, cheio de formas e despertando sensualidade, foi por muitos anos o ai Jesus do nosso povo. Das classes miudas e da gente elegante. Da ralé aos finos. Dos simples e modestos. E dos que sabem um francezinho e estudam philosophia com o padre mestre.

Quanta coisa linda o negro nos deixou! Quanta coisa bôa e gostosa!

E no entanto elle vivia ahi como inferior. A nossa sociologia escutava as licções de Laponge e de Gobineau, esquecendo da verdadeira realidade da terra. Sem estudar o negro o seu papel preponderante na formação brasileira, os sociçologos só citavam Gobineau. Só liam Laponge. faltava-lhes, apenas, crear, como no seculo XVII, o governo espanhol attestado de brancura, as taes «cedulas de gracias al sacar» para purificar a mestiçagem brasileira.

O negro era inferior. O aryano era que tinha feito o Brasil. Todos procuravam esquecer a preponderancia daqueles «amplexos sensuaes», de que fala Oliveira Lima, e que eram intermediario da fusao racial. Amplexos que se extendiam nas senzalas ao verde dos cannaviaes. Ou á sombra cheirosa das gaiobas e dos maracujás.

O negro, porém, é que fizera tudo. Tudo que até um escriptor portuguez reconhece – o negro veio fazer o Brasil.

Por isto mesmo a grande significação do Io Congresso Afro-Brasileiro, de que os aryanos não acreditam em exito. Partindo de um movimento de idéas, foi a concretização de quanto vale o negro na formação brasileira. tanto mais que é o proseguimento do livro admirável de Gilberto Freyre na rehabilitação do negro.

E a audição de musica afro-brasileira dirigda por Ernani Braga e Vicente Fitipaldi é um dos pontos interessantes do Congresso. Motivos apanhados na sua mais fresca originalidade, Cantos com aquella expressão viva da musica africana. Optimo pinto de partida par aum estudo completo do elemento negro na nossa musica. Elemento tão forte, tão preponderante, que talvez, não seja erro dizer que é delle que vem a verdadeira musica brasileira. Com todos os caracteristicos de sua formação. Do factor ethnico ao clima onde se adaptou o negro para formar um nove grupo social. Sem esquecer os seus rythmos vivos e alegres e as suas danças quentes e sensuaes.

(Do «Diario de Pernambuco»)

Estatutos do Instituto Afro-Brasileiro

Art. 1 – O Instituto Afro-Brasileiro com duração indefinida e numero ilimitado de socios, destinado a organisar, coordenar e estimular todos os estudos dos problemas decorrentes da influencia exercida pelo elemento africano e seus descendentes na formação ethnica economica, social e artistica do Brasil, centralizando a documentação existente, promovendo inquerito, realisando conferencias, editando publicações e convocando congressos nacionaes, para mais ampla comprehensão do assumpto, sob orientação rigorosamente scientifica.

Art. 2 –  O Instituto Afro-Brasileiro, extenderá suas investigações á Africa, directamente enviando ou patrocinando missoes collectivas ou individuaes as fontes de origem, e indirectamente por meio de intercambio com instituições scientíficas e estudiosos africanos.

O primeiro Congresso Afro-Brasileiro foi um sucesso, e plantou a semente fundamental no movimento negro brasileiro, buscando as suas raízes na sua história recente.

O legado do congresso foi um orgulho estampado nas páginas dos jornais do talento e da importância do negro na arte e na história brasileira.

O espaço serviu de confluência para um sentimento real entre a nova geração cheia de esperanças que criava arte naquele momento, logo as coisas mudariam de rumo uma e outra vez, mas essa semente floresceu com força naquela geração.

Gilberto Freyre

Gilberto de Mello Freyre (Recife, 15 de março de 1900 — Recife, 18 de julho de 1987) foi um polímata brasileiro. Como escritor, dedicou-se à ensaística da interpretação do Brasil sob ângulos da sociologia, antropologia e história. Foi também autor de ficção, jornalista, poeta e pintor.

Autor de Casa Grande e Senzala, livro fundamental na cultura brasileira.

 

Dorival Caymmi

Dorival Caymmi (Salvador, 30 de abril de 1914 – Rio de Janeiro, 16 de agosto de 2008) foi um cantor, compositor, instrumentista, poeta, pintor e ator brasileiro.

Compôs inspirado pelos hábitos, costumes e as tradições do povo baiano.Tendo como forte influência a música negra, desenvolveu um estilo pessoal de compor e cantar, demonstrando espontaneidade nos versos, sensualidade e riqueza melódica.

 

Jorge Amado

Jorge Leal Amado de Faria ou apenas Jorge Amado (Itabuna, 10 de agosto de 1912 — Salvador, 6 de agosto de 2001) foi um dos mais famosos e traduzidos escritores brasileiros de todos os tempos. Jorge Amado é o autor mais adaptado do cinema, do teatro e da televisão. Sua obra literária – 49 livros, ao todo – também já foi tema de escolas de samba por todo o País. Seus livros foram traduzidos em 80 países, em 49 idiomas, bem como em braille e em fitas gravadas para cegos.

Integrou os quadros da intelectualidade comunista brasileira desde o final da primeira metade do século XX – ideologia presente em várias obras, como a retratação dos moradores do trapiche baiano em Capitães da Areia, de 1937.